quarta-feira, 25 de abril de 2018

Leandro, rei da Helíria


Leandro, rei da Helíria


título do texto dramático «Leandro, rei da Helíria» cria a expectativa de a história ser sobre... uma personagem principal, chamada... Leandro (o nome surge em primeiro lugar) e que é... rei de uma terra chamada... Helíria
Portanto, uma personagem masculina e o seu poder sobre um certo território serão provavelmente aspectos importantes: «Deste o reino, deste o manto, / deste o ceptro, deste a coroa / às filhas do teu encanto [...]» (p. 69). Como sabemos, trata-se de uma herança e uma questão de poder: Quem sucederá a Leandro no seu trono? Quem reinará em Helíria?

Estrutura externa da peça. 

A peça divide-se em dois actos (quando o cenário muda, assistimos então ao 2.º acto); cada acto tem onze cenas (sempre que uma personagem sai ou entra em cena/palco muda-se de cena).

O texto principal é constituído pelas falas das personagens. O modo de expressão dominante é o diálogo  - por exemplo:
PRÍNCIPE FELIZARDO: E o que é que a gente faz com um coração?
PRÍNCIPE SIMPLÍCIOTiraste-me as palavras da boca!

O texto secundário é constituído pelas indicações do autor a que damos o nome de didascálicas e são destinadas aos actores e a todos os técnicos que contribuem para a encenação da peçaEssas indicações cénicas surgem entre parênteses e em itálico – vejamos vários exemplos:

Elementos envolvidos na representação do texto
Didascálicas
Cenógrafo
(No jardim do palácio real de Helíria. Rei Leandro passeia com o Bobo)
Aderecista
(Preparativos para a festa, os criados passam com grandes travessas, cestos, barris, etc. ... Cantam)     (p. 39)
Luminotécnico
(Aqui a cena fica suspensa, e a luz centra-se apenas no bobo, que fala para os espetadores na plateia)     (p. 14)
(A luz regressa à gruta)     (p. 79)
Sonoplasta
(Tocam as trombetas)     (p. 29)
Actores
(Simplício encolhe os ombros)(Simplício diz que não com a cabeça, o outro fica mais sossegado)     (p. 55)

Estrutura interna da peça.
  1. exposição (introdução) - 1.º acto: cenas I a VI
  2. conflito (desenvolvimento) - 1.º acto: cena VII até 2.º acto: cena VIII
  3. desenlace (conclusão) - 2.º acto: cena IX até cena XI



Caracterização das personagens

  1. O rei Leandro
    • É rei do reino de Helíria.
    • Sente-se velho de mais para continuar a reinar.
    • Está atormentado com um sonho que interpreta como sendo uma mensagem dos deuses.
    • Tem no Bobo um amigo, mas não lhe dá o devido valor.
    • O seu maior tesouro são as filhas, principalmente a mais nova, Violeta.
    • É impulsivo ao questionar as filhas e a julgar as suas respostas: demonstra ser cruel com Violeta por esta o desapontar com a sua medida de amor.
    O Bobo
    • É uma personagem divertida que dá humor à acção.
    • Ao longo da peça, para além da sua função cómica, o Bobo assume também o papel de comentador e de crítico (por vezes, é irónico e muitas vezes os seus apartes expõem ou dão a conhecer melhor as pessoas que rodeiam o rei).
    • Revela ser inteligente e ponderado.
    • Apercebe-se bem do carácter das princesas.
    • Não abandona o Rei apesar da sua desgraça e é ele quem, anos mais tarde, o guia até Violeta.
    • Estabelece uma relação forte com o público através dos apartes e monólogos proferidos.
    Amarílis
    • É uma princesa, a filha mais velha do rei Leandro da Helíria.
    • De acordo com a simbologia do seu nome de flor, a traição, diz o povo que é uma mulher artificiosa, enganadora e interesseira.
    • Não se preocupa com a superficialidade do noivo.
    • É falsa, ingrata e oportunista: na primeira oportunidade expulsa o próprio pai do seu reino.
    Hortênsia
    • É uma princesa, a filha do meio do rei Leandro.
    • De acordo com a simbologia do seu nome de flor, a vaidade, diz o povo que as Hortênsias são mulheres caprichosas e inconstantes.
    • É falsa e interesseira, como a irmã mais velha: também ela não se sente culpada ou com remorsos por expulsar o pai do seu reino.
    • Não se incomoda com a falta de personalidade do noivo.
    • Entra em competição com a irmã Amarílis.
    Violeta
    • É uma princesa, a filha mais nova do rei Leandro da Helíria e a sua preferida.
    • É uma filha preocupada,  amorosa e bondosa: preocupa-se com o bem-estar do pai e de todos. Simbolicamente a Violeta representa a modéstia. De facto, é a simplicidade de Violeta que vai provocar a ira do pai e a sua expulsão de casa.
    • Sente um amor verdadeiro e desinteressado pelo príncipe Reginaldo.
    • Apesar de ter sido incompreendida e expulsa do reino pelo pai, não lhe guarda rancor e perdoa-lhe todo o mal que lhe fez.
    O Príncipe Felizardo
    • É o pretendente e futuro marido de Amarílis.
    • Novo-rico e muito materialista – acha que o valor das pessoas se mede por aquilo que elas possuem –, é vaidoso, convencido, altivo, grosseiro, gabarola.
    • Sendo também interesseiro, não espanta que não dê importância ao amor no casamento entre duas pessoas.
    • Desculpa as suas atitudes com as ordens de Amarílis.
    O Príncipe Simplício
    • É o pretendente e futuro marido de Hortênsia.
    • Vive na sombra de Felizardo, apoiando-o incondicionalmente, e revela uma fraca personalidade.
    • Tem um vocabulário reduzido e por isso apenas profere, ao longo de toda a peça, uma única frase: «Tiraste-me as palavras da boca.».
    Príncipe Reginaldo
    • É o pretendente e futuro marido de Violeta.
    • Ama-a verdadeiramente e sente-se feliz por ser correspondido  por Violeta. 
    • Enfrenta o rei quando este expulsa do reino a filha mais nova, Violeta.
    • É terno, apaixonado, bondoso e generoso, e apoia Violeta nas suas decisões.
    Pastor, Godofredo Segismundo
    • É perspicaz e detentor de sabedoria popular.
    • É uma pessoa feliz na sua humildade e no seu casamento com Briolanja.
    • Encaminha o rei para o palácio de Violeta, permitindo um final feliz.

    Após a leitura da obra, responde às questões deste 

    QUIZ 
    do Agrupamento de Escolas de Fajões.




    http://licoespraticas.blogspot.pt/2015/05/sobre-leandro-rei-da-heliria-1991-de.html

segunda-feira, 23 de abril de 2018

Comemoremos...


...as mais de cem horas juntos. Aprendemos todos uns com os outros muitas coisas, mas o mais importante é aprendermos a ser.















Espero continuar a ajudar-vos a ser "criadores de sonhos".

sábado, 21 de abril de 2018

Leandro, rei da Helíria




Foi ontem que fui com os meus alunos do 7.º ano ao teatro. Eles adoraram a representação e reconheceram desde logo as personagens. No fim, disseram que faltavam algumas partes, que o texto da Alice Vieira era mais completo. Fiquei contente: afinal, sabiam bem o que tinha sido eliminado desta representação, sinal de que estiveram atentos ao estudo da obra. Concluíram, por fim, que se a peça fosse representada integralmente, duraria muitas horas e as pessoas achá-la-iam "um pouco secante". 













LEANDRO, REI DA HELÍRIA

de Alice Vieira
Tudo se passou no reino de Helíria, há muitos, muitos anos. Leandro, rei de Helíria, teve um sonho muito estranho, mesmo muito estranho!  Segundo ele, este sonho era um “recado dos Deuses”! Estes queriam que Leandro deixasse de reinar.
O rei tinha três filhas – Amarílis, Hortênsia e Violeta – e resolveu entregar o reino à filha que demonstrasse ter maior amor por ele.
«Quero-vos como a comida quer ao sal», foi assim que definiu a princesa Violeta o seu amor pelo pai. Leandro, não percebendo o significado das palavras da filha, acabou por tomar a pior das decisões... 
Vem, mais tarde, a arrepender-se, percebendo que Violeta seria a única merecedora da sua generosidade.

Vitima do próprio orgulho e castigado pela sua cegueira, o rei expia as culpas mergulhando na miséria, ainda que sempre acompanhado pelo seu fiel bobo.

Por fim, passados anos, reencontra Violeta que lhe demonstra com um banquete “especial”, o verdadeiro significado das palavras usadas no passado.

Uma bela história de tradição popular, com um enredo em muitos aspectos semelhantes ao de “Rei Lear” de Shakespeare. Uma história onde se fala de amor, de ingratidão, de sonhos, de remorsos, de longas viagens, de aprendizagem e de muito mais…





Resumo do texto dramático



Um rei bondoso, duas filhas más, uma filha boa e um bobo fiel. É assim o reino de Helíria! Tudo está em paz até ao dia em que o Rei tem um sonho muito estranho, que o leva a crer que está na altura de abandonar o trono. Como não tem filho varão decide entregar o reino à filha que mais o amar. Para isso, cada uma deve exprimir, por palavras, os seus sentimentos. Amarílis e Hortênsia fazem um lindo discurso comparando o seu amor ao Sol, ao ar e a todos os elementos vitais. Viloleta, a filha mais nova, não encontra outra comparação senão a de que quer ao pai tanto como a comida quer ao sal. O Rei não entende esta medida de amor e, furioso, expulsa a filha, para sempre, e entrega metade do reino a cada uma das outras filhas. Mais tarde, as filhas más acabam por expulsar o pai, que caminha durante anos com o seu bobo fiel por terras desconhecidas. Já velho, cansado e cego, encontra, sem saber, o reino de sua filha Violeta. Esta serve-lhe um manjar de comida sem sal. O pai compreende, então, a falta de um bem tão essencial e pede perdão a Violeta por não ter percebido que ela era a única filha honesta e que realmente o amava.




Fontes de inspiração


Pelo menos, duas histórias terão servido  de inspiração ao texto dramático de Alice Vieira:


Um conto tradicional: 


O Sal e a Água


     Um rei tinha três filhas; perguntou a cada uma delas, por sua vez, qual era a mais sua amiga. 
     A mais velha respondeu:
     – Quero mais a meu pai do que à luz do Sol.
     Respondeu a do meio:
   – Gosto mais de meu pai do que de mim mesma.
     A mais moça respondeu:
     – Quero-lhe tanto como a comida quer o sal.
     O rei entendeu por isto que a filha mais nova o não amava tanto como as outras, e pô-la fora do palácio.
     Ela foi muito triste por esse mundo, e chegou ao palácio de um rei, e aí se ofereceu para ser cozinheira.
     Um dia veio à mesa um pastel muito bem feito, e o rei ao parti-lo achou dentro um anel muito pequeno, e de grande preço. Perguntou a todas as damas da corte de quem seria aquele anel. Todas quiseram ver se o anel lhes servia; foi passando, até que foi chamada a cozinheira, e só a ela é que o anel servia. O príncipe viu isto e ficou logo apaixonado por ela, pensando que era de família de nobreza.
     Começou então a espreitá-la, porque ela só cozinhava às escondidas, e viu-a vestida com trajos de princesa. Foi chamar o rei seu pai e ambos viram o caso.
     O rei deu licença ao filho para casar com ela, mas a menina tirou por condição que queria cozinhar pela sua mão o jantar do dia da boda.
     Para as festas do noivado convidou-se o rei que tinha três filhas, e que pusera fora de casa a mais nova. A princesa cozinhou o jantar, mas nos manjares que haviam de ser postos ao rei seu pai não botou sal de propósito.
     Todos comiam com vontade, mas só o rei convidado é que nada comia. Por fim perguntou-lhe o dono da casa porque é que o rei não comia.
     Respondeu ele, não sabendo que assistia ao casamento da filha:
     – É porque a comida não tem sal.
   O pai do noivo fingiu-se raivoso, e mandou que a cozinheira viesse ali dizer porque é que não tinha botado sal na comida.
     Veio então a menina vestida de princesa, mas assim que o pai a viu, conheceu-a logo, e confessou ali a sua culpa, por não ter percebido quanto era amado por sua filha, que lhe tinha dito que lhe queria tanto como a comida quer o sal, e que depois de sofrer tanto nunca se queixara da injustiça de seu pai.

Contos tradicionais portugueses do povo português,
recolha por Teófilo Braga, 1.ª ed. – Porto, 1860



Uma das mais famosas tragédias:

terça-feira, 17 de abril de 2018

O Palácio da Ventura



"Sonho que sou": eis as primeiras palavras que lemos. Chama-nos a atenção de imediato o verbo "sonhar". O texto parte de uma realidade onírica, ideal. Não é verdade que o sonho é uma "constante da vida", "Que sempre que o homem sonha/O mundo pula e avança"? Não é verdade que muitas vezes nos entregamos ao sonho? O sujeito poético (= eu [sonho]) sonha. O quê? "Sonho que sou um cavaleiro andante". A sua convicção é reforçada pela repetição da consoante [ s ]: se souberes a classificação das consoantes, dirás que a repetição do fonema sibilante [ s ] confere força à afirmação, ele aparece em duas sílabas tónicas seguidas. Basta alterares o verso para "Sonho-me um cavaleiro andante" ou "Julgo que sou um cavaleiro andante" para veres a diferença de força. O que é um cavaleiro andante? Em que época havia cavaleiros andantes? Hoje não há, hoje há automóveis, aviões... Na Idade Média eram frequentes as aventuras desses cavaleiros. É, pois, a aventura, sinónimo de sonho, que devemos fixar. A caracterização do cavaleiro como andante remete exatamente para um espaço a percorrer, num determinado momento temporal. Que espaço?
"Por desertos, por sóis, por noite escura". Chama-nos a atenção a repetição da consoante [p] ou do fonema bilabial momentâneo [p], que, pela implosão do ar e ruído que provoca, sugere de imediato o som do trotar do cavalo: p p p. Se o texto fosse simbolista, poderíamos mesmo tirar partido da configuração desta consoante para a sugestão da configuração física da pata do cavalo. Mas não é. O espaço e a dimensão temporal são, pois, constituídos por três realidades: desertos, sóis, noite escura. Cavalgar por desertos, é difícil, não é verdade? A aventura não será fácil, o objetivo a alcançar não será fácil. Cavalgar por desertos e ainda por sóis é ou não mais difícil? O sol escaldante do deserto! A vida não é também uma aventura "escaldante"? Já imaginaste o que seria uma vida sem provas? Vais ler mais tarde poemas de Fernando Pessoa, sobretudo de Mensagem, onde encontrará uma definição ideal de vida. Cavalgar por noite escura não será sinónimo de impossibilidade? A noite já é em si escura. Por que razão o poeta quis qualificá-Ia de escura? É que há noites com tanto luar que permitem ver. O que parece evidente é a gradação crescente de dificuldades que o cavaleiro terá de vencer. Que força o impele? "Paladino do amor": é o amor a um objetivo, a uma meta. Não é verdade que o amor é por vezes mais forte do que a morte, como diz o provérbio? Alguém escreveu: "Ama faz que quiseres". Quando o amor é mesmo amor, tudo se pode vencer. Guiado pela força do amor, o cavaleiro procura "anelante/O palácio encantado da Ventura". Eis a meta, o objetivo: a Ventura, metaforicamente rainha de um palácio encantado. Que a procura é intensa, mostra-o não só o adjetivo com a função de advérbio, mas o transporte do verso terceiro sobre o verso quarto. Cavaleiro andante, palácio encantado, tudo a lembrar a época medieval, os contos de fadas, a procura do Graal, etc.
Pergunta-se muitas vezes para que serve a rima. Repara: andante rima comanelante
escura com Ventura. Será rima só de ouvido? Se fosse o caso, não teria muito interesse. A poetização faz-se quer a nível do significante quer a nível do significado. A nível do significante, podemos determo-nos nos exemplos apontados. Andante eanelante são adjetivos que se aproximam pelo som e pelo significado; a rima funciona por semelhança. Escura e Ventura são palavras de categoria gramatica l diferente e de significado diferente. Por que razão terá o poeta escolhido esta rima rica? Parece não ser difícil distinguir que se fez a aproximação destas palavras para sugerir dificuldade. Não é difícil cavalgar sem nenhuma luz? A Ventura, a felicidade, não qualquer felicidade, porque as palavras maiusculadas adquirem significados que transcendem a denotação, a felicidade profunda, vital, essencial, felicidade a que leva um autêntico amor, não é difícil de alcançar? Eis o sentido da rima, eis a poetização do significante.
Tudo quanto dissemos aponta para elevado grau de dificuldade. Não admira que o cavaleiro vacile na primeira prova a que é submetido: "Mas já desmaio, exausto e vacilante/Quebrada a espada já, rota a armadura..." A exaustão leva à vacilação, o advérbio de tempo "já" indica o momento do desmaio. Terá sido grande a luta? O cavaleiro tinha consigo as suas armas, com as quais julgava poder conseguir os seus intentos. Todavia, elas foram destruídas durante a luta. E aconteceu o desmaio, a queda, mas não a desistência. Quantas vezes não caímos? Quantas vezes não nos levantamos? Não é a vida feita de sucessos e de insucessos? A pontuação reticente pode sugerir o que acabamos de dizer ou ainda um momento de recuperação de forças: mesmo desmaiado, tem dentro de si a força que o faz agir: o amor. É por isso que, de forma quase inesperada, o cavaleiro avista aquele palácio que procurava. Então, como um náufrago que avista uma boia, ganha forças. Ganha forças porque o avistou e ganha forças porque ele era realmente belo, talvez mesmo muito mais belo do que pensara. Compreendes por que é destacada a "sua pompa e aérea formosura"? Antes era um "palácio encantado", agora mais perto é ainda mais sedutor. Não haverá a intenção de salientar a qualidade da Ventura, do Sonho?
A passagem de estrofe é estratégica: sugere o tempo necessário para o cavaleiro chegar ao palácio. O poema é uma unidade, tem de haver continuidade, não podem acontecer saltos. Uma vez encontrado o palácio, o que faz o cavaleiro? Duas ações. Repara na poetização do significante: "Com grandes golpes bato à porta e brado"; construído o verso com monossílabos e dissílabos, a acentuação tem de sugerir os golpes: ~´~´~´~´~´/; repara que nas sílabas sexta e décima recaem os acentos dominantes (verso decassílabo heroico) e as palavras que os contêm são as que indicam as duas ações; repara na repetição (aliteração) dos fonemas sublinhados a negro e na repetição da vogal aberta /a/, a sugerir admiração e expectativa. Tudo se conjuga para criar um efeito quase onomatopaico do que acontece. O cavaleiro bate à porta e simultaneamente (simultaneidade indicada pela conjunção coordenativa e) grita. Este verso é um exemplo acabado do trabalho sobre o significante.
A apresentação do cavaleiro é também notável: "Eu sou o Vagabundo, o Deserdado..." Novamente as maiúsculas a conferir significados transcendentes às palavras. Que significará Vagabundo? Não o sentido a que nos habituámos a colar a essa palavra. Os alunos já viram o uso do adjetivo "vago" em Bocage e em Garrett com o significado de andante, que vagueia. É esse o significado neste contexto, aumentado da transcendência que lhe advém de estar maiusculado: será então aquele que procura algo de essencial, de vital. E Deserdado? Aquele que tem de conquistar a Ventura, porque a felicidade não é um rebuçado que cai do céu: tem de ser merecida. Belo tema para os nossos jovens ganharem o ideal de saber viver, tendo presentes as palavras de Fernando Pessoa: "Quem quer passar além do Bojador/Tem que passar além da dor."Qual o grito do cavaleiro? "Abri-vos, portas d'ouro, ante meus ais!" Da luta, do sacrifício, já falámos; também não admira que as portas sejam de ouro, pois o palácio é encantado e fulgurante; a metaforização de todo o palácio é um dado necessário para evidenciar a grandeza da procura. A pontuação deixa transparecer a aflição e a expectativa do cavale iro, prestes a atingir o seu objetivo. A mudança de estrofe é também estratégica, como já o vimos anteriormente.
As portas obedecem a tão ansioso pedido; o ruído que fazem é sugerido pela repetição do fonema vibrante [r] e denuncia que poucas vezes se abrem essas portas. O cavaleiro pode ou não vencer esta terceira prova? Encontrará ou não a Ventura? Tudo parece indicar que sim. Mas, oh! crueldade!, não vai vencer. A adversativa "Mas" indicia uma deceção, consumada com o vazio do palácio: "Mas dentro encontro só, cheio de dor,/Silêncio e escuridão - e nada mais." Repara que a "noite escura" já indiciava impossibilidade; repara no paralelismo "Mas já"- disjuntivo temporal - e "Mas dentro" - disjuntivo espacial; repara no paralelismo "já desmaio" e "encontro só". Não te parece que havia vários indícios de fracasso ao longo do poema? Se eram abundantes esses sinais, não se esperava uma tão completa deceção. Um poema é um percurso - a vida é um percurso -, inicia-se e, por vezes, não se sabe onde vai chegar. Não é esta uma das atrações da poesia? Um jogo de resultados imprevisíveis? Se tudo fosse conhecido de antemão, onde a magia, o encanto da descoberta? O cavaleiro entrou no palácio encantado, parecia ter alcançado o que procurava. Mas apenas encontrou "Silêncio e escuridão - e nada mais!" Repara como a tonalidade das palavras se fechou: os sons nasais, palavras de sentido negativo, o pronome indefinido negativo reforçado pelo advérbio de quantidade. Deceção completa! O cavale iro terá de recomeçar tudo de novo. Quem não vê neste poema a história de tantas tentativas fracassadas? Quem não vê neste poema a distância que vai do sonho à realidade? Quem não vê neste poema o próprio Antero, utópico, revolucionário, cheio de força, erguendo a espada da Liberdade, do Amor e da Justiça, mas incompreendido, recusado? Quem não vê neste poema a alegoria de tantos jovens sonhadores e incompreendidos? Terá sido então inútil esta procura? Nada é inútil quando os objetivos por que se luta são autênticos. Nunca se deve desistir. Quem sabe se da próxima vez este cavaleiro não encontrará a sua Ventura! O que terá falhado? Perguntas que motivam outros textos que poderiam ser escritos.
Fizemos também uma caminhada de aná lise textual. Estamos convencidos de que um trabalho destes não deixará de ser estimulante, pois é um jogo.
           
J. Guerra e J. Vieira, Aula Viva. Português A. 12º Ano, Porto Editora, 1999
           



segunda-feira, 16 de abril de 2018

Feijoada de coelho com couve


Feijoada de coelho

1 coelho pequeno ou meio coelho
1 cebola 
dentes de alho
pimenta em grão
piripiri
1 folha de louro
1 tomate maduro
azeite
vinho tinto
1 couve 
feijão cozido

Corte o coelho em pedaços e tempere-o com sal, alhos, pimenta em grão, piripiri (se gostar!), louro e vinho tinto. Reserve.
Descasque a cebola e leve a picar na CC. Junte azeite e deixe cozinhar lentamente (programa slow cook) por 5 minutos. Acrescente o tomate e cozinhe por mais 5 minutos no mesmo programa. Retire o dispositivo de picar e substitua-o pelo misturador. Acrescente o coelho e a marinada e leve a cozinhar por 20 minutos à velocidade 2, temperatura 100º. Arranje a couve. Junte a couve e com uma colher de pau envolva-a com o coelho e o molho. Deixe cozinhar mais 20 ou 30 minutos. Quando acabar o tempo programado, envolva o feijão escorrido e leve a apurar 5 minutos no programa slow cook.

Bom apetite!

domingo, 15 de abril de 2018

Pasto da Vila - Óbidos



Querem petiscar num local rústico e bem simples, mas com um atendimento muito simpático? O Pasto da Vila é um espaço acolhedor, uma taberna típica, com um ar campestre, rural, com uma decoração algo grosseira, caracterizada pela aparência simples, sem muitos detalhes. É um estilo despretensioso, informal, mas muito aconchegante.

Nos jardins do Espaço Ó, junto à entrada da vila de Óbidos, fica situado o Pasto da Vila. A decoração rústica lembra uma taberna do início do século passado e o cheiro a pão cozido no forno a lenha atesta que os alimentos são ali confeccionados, à moda antiga.

No espaço podemos saborear queijos (queijo fresco e curado a partir de leite de cabra) de fabrico artesanal, mas também chouriço assado e outros petiscos como moelas, tapas e bifanas. Há também pão caseiro simples e com chouriço ou torresmos, sopas e alguns pratos especiais, como o cabrito à Pasto da Vila, as queixadas à D. Lurdes (em homenagem à cozinheira que as confecciona) e o bacalhau assado com batata a murro.


No fim-de-semana pode haver muita gente à espera para comprar pão! Claro que isto acontece porque o pão é realmente uma delícia.



A taberna Pasto da Vila está aberta diariamente. Entre segunda e quinta-feira funciona entre as 10h00 e as 19h00 e de sexta-feira a Domingo está aberta entre as 10h e as 24h. A capacidade é de 45 pessoas no interior mais a zona de esplanada. Ao fim-de-semana é melhor marcar!
















terça-feira, 3 de abril de 2018

Felizmente há luar!



3 de Abril de 1926 - Nasce Luís de Sttau Monteiro, autor de "Felizmente Há Luar!"

(Lisboa, 03-04-1926 – Lisboa, 23-07-1993)
Luís Infante de Lacerda Sttau Monteiro nasceu em Lisboa, 
mas a sua educação foi feita em Londres, para onde
partiu com o pai, Armindo Monteiro, que aí exerceu 
funções de embaixador entre 1936 e 1943. Em 1943,
 após a demissão do pai por discordâncias políticas
 com o governo de Salazar, a família regressou a Lisboa,
 onde Sttau Monteiro finalizou os estudos, licenciando-se
 em Direito pela Universidade de Lisboa em 1951. Exerceu
 advocacia apenas durante dois anos, após os quais parte
 para Londres. De regresso a Portugal, trabalhou
 como tradutor e publicista colaborando em várias
 publicações como a revista Almanaque (1960), onde
 assinou crónicas gastronómicas sob o pseudónimo
 de Manuel Pedrosa, e o suplemento “A Mosca” no Diário
 de Lisboa, vindo a destacar-se neste mesmo jornal a sua
 coluna com as redacções da Guidinha, posteriormente
 publicadas em livro (2002).
Em 1960 iniciou-se na escrita de novelas com Um
 homem não chora, e em 1961 prosseguiu com 
Angústia para o jantar, ganhando notoriedade na escrita
narrativa. Mas foi pelo teatro que concitou as maiores
atenções. Em 1961 publicou Felizmente há luar!, drama
narrativo histórico baseado na figura de Gomes Freire de
Andrade, situado na linha do teatro épico. Esta peça foi
distinguida, em 1962, com o Grande Prémio de Teatro
da então Sociedade de Escritores e Compositores 
Teatrais Portugueses, mas a sua representação foi 
proibida pela censura, só subindo ao palco em 1975. Com 
este texto, Sttau Monteiro iniciou uma temática que 
prosseguiu nas obras seguintes: a defesa do Homem, da 
liberdade, a luta pela justiça social e a denúncia política. 
Aquando da publicação da peça, Sttau Monteiro 
encontrava-se na prisão por suspeita de ter colaborado na 
“intentona de Beja” (1962).
Esta experiência traumática levou-o a sair de Portugal, 
indo uma vez mais para Inglaterra (onde permaneceu 
de 1962 a 1967), continuando, porém, a escrever para
teatro com originais e adaptações: Todos os anos pela
Primavera, em 1963; O Barão (adaptação do romance de 
Branquinho da Fonseca), em 1965; Auto da Barca do 
motor fora da borda (adaptação do Auto da Barca do 
Inferno de Gil Vicente), em 1966. Foi preso pela PIDE em 
1967, após a publicação das peças satíricas A Guerra 
santa e A estátua, onde teceu duras críticas à ditadura
e à guerra colonial. A experiência de dois meses de prisão
levou-o a escrever em 1968 a peça As mãos de Abraão Zacut
cuja acção se situa num campo de concentração. Foi 
representada pela primeira vez em 1969, pelo Teatro Estúdio
de Lisboa, com encenação de Luzia Maria Martins.
Foi co-autor, com Alexandre O'Neill, dos diálogos para o filme
 de Artur Ramos, Pássaros de asas cortadas (1963), adaptação 
para cinema da peça homónima de Luiz Francisco Rebello. Em 1971, 
com Artur Ramos, adaptou ao teatro o romance de Eça de 
Queirós A relíquia, representada no Teatro Maria Matos, e, ainda
no mesmo ano, escreveu a peça Sua Excelência, uma nova sátira 
social, projectada para o mesmo teatro. Em 1978 concebeu para o 
Grupo 4 (Teatro Aberto) a peça de inspiração satírica e brechtiana 
A crónica atribulada do esperançoso Fagundes, que teve música 
de Pedro Osório e canções de José Carlos Ary dos Santos e 
Paulo de Carvalho.
A maioria das suas peças está traduzida em várias línguas e 
publicada em diversos países. Por sua vez, traduziu algumas 
peças de teatro como Summer and Smoke (Fumo de Verão
1962), de Tennessee Williams, e The Dumb Waiter (O monta-cargas, 
1963) de Harold Pinter.
Fonte: http://cvc.instituto-camoes.pt



Felizmente há luar!
Autor: Luís de Stautt Monteiro
Influência maior: Berlott Brecht – Teatro Épico
O TEATRO ÉPICO:
Debruça-se sobre o Homem, no seu constante devir - é uma luta permanente para transformar a sociedade. 
Para isso, usa a técnica da Distanciação Histórica e o realismo.
É preciso procurar um facto histórico mais remoto e compará-lo com a realidade próxima que se quer denunciar. Ao criticar o passado, consegue transpor a mensagem para o presente, obtendo assim um paralelismo fiável. 
Os actores não interagem com o auditório. O papel deles é apresentar uma ideia e não criar empatia. Deste modo, atinge-se a lucidez à o público formula juízos de valor.
OBJECTIVO: - Levar a sociedade (público) a tomar consciência da realidade.
PORQUÊ?
- A tomada de consciência leva à acção. 
- A acção leva à mudança.
A OBRA: 
Tempo da História: século XIX
Tempo da Escrita: século XX
PERSONAGENS: 
É possível agrupar algumas personagens segundo as suas posições.
1. Os do Poder: 
D. Miguel Forjaz
. Marechal Beresford
. Principal Sousa
2. O Povo: 
. Manuel, o mais consciente dos populares
. Rita
. O Antigo Soldado
. Vicente
3. Os Delatores:             
. Morais Sarmento
. Andrade Corvo
. Vicente
As individuais: 
. Frei Diogo de Melo, o homem sério da igreja
. António de Sousa Falcão, o amigo
. Matilde de Melo, a companheira de todas as horas
. General Gomes Freire de Andrade
Nota: Vicente é a única personagem que evolui na obra: começa como membro do povo e acaba no grupo dos delatores, elevado a chefe da polícia.
Manuel:
. Representa o povo oprimido e esmagado.
. É lúcido e consciente.
. Usa uma linguagem popular que combina com o realismo da obra.
General Gomes Freire: 
. Único
. Com valores, íntegro
. Politicamente liberal, igualitário
Vicente:
. Desrespeita/ Despreza o povo – FALSO HUMANITÁRIO
. É contra o general
. Traidor, calculista
. Ambicioso, materialista
. Subtil, inteligente
. Egoísta
D. Miguel Forjaz: 
. Anti-progressista/ retrógrado
. Conservador
. Autoritário
. Medroso 
. Sem escrúpulos/ mercenário
. Corrupto – deixa-se corromper e tenta corromper os outros
. Vê o liberalismo como anarquia e caos
. Acha-se superior – absolutista: “Um mundo em que não se distinga a olho nu um nobre de um popular não é mundo em que eu deseje viver” 
. Falso demagogo “Deus, Pátria e Família”
Marechal Beresford:
. Mercenário
. Lúcido e consciente
. Mau soldado, mas bom estratega
. Pragmático
. Calculista “não é prudente ainda dizê-lo”
. Ardiloso – trama a confusão mas não a integra
Principal Sousa: 
. Corrompido pelo poder
. Deveria semear a paz e semeia o confronto
. Hipócrita
. Contra o liberalismo – odeia os francesas por causa das suas ideias
. Anti-progressista
. Cínico
Frei Diogo:
. O lado bom da igreja 
. Homem com compaixão
. Conforta Matilde
. Defende Gomes Freire – corrobora a sua inocência
. Opõe-se ao Principal Sousa
Matilde de Melo: 
. É a força do segundo acto
. Está desesperada
. Luta por: lealdade, justiça, verdade
. Digna
. Apaixonada e devota a Gomes Freire
. Por vezes, parece um pouco alucinada
. Culta, vivida
. Forte, lutadora, destemida
. Inteligente
. Grande poder de Argumentação (ver discussão com Principal Sousa)
. Oscila entre dois pólos: 
. uma mulher feminina, frágil, consumida pela angústia, a suplicar pelo amor da sua vida, não temendo sequer contrariar princípios. 
. uma mulher forte, destemida, que acusa os males do seu povo e denuncia a corrupção e a falta de índole, a tirania.
“Cortam-se as árvores para não fazerem sombra aos arbustos!”
AS DIDASCÁLIAS: 
Existem as didascálias normais, que se seguem ao texto, e as didascálias marginais, típicas do teatro de Brecht. Estas corroboram o distanciamento histórico.
Luz/Sombra: 
. A falta de luz no cenário (escuridão total) mostra o clima da época – o regime opressor, a ignorância do povo, a obscuridade.
. A intensa luminosidade no Manuel (primeira cena) corrobora a indicação inicial “Manuel, o mais consciente dos populares”. Luz é conhecimento, lucidez.
SÍMBOLOS: 
A Moeda:
- a miséria do povo, a esmola
- o compromisso que o povo tem para com o General:
. É como uma medalha de honra para Matilde.
. É símbolo da fé que o povo tem no General.
. Mostra que povo não luta porque não pode.
- a traição da igreja (à semelhança de Judas, a igreja vende-se em nome do dinheiro e do poder)
A Fogueira:
- Por D. Miguel: símbolo de purificação, limpeza
. Quem não está connosco, está contra nós, é preciso afastar.
. Semelhança com a Santa Inquisição
- Por Matilde e Sousa Falcão: 
. Profecia de mudança
. Purificação, redenção, chama da esperança
. Renascimento, advento
A Saia Verde:
- Em vida: 
. Esperança
. Liberdade - Paris, Revolução Francesa
. Pureza, Inocência - neve branca
- Após a Morte:
. A alegria do reencontro
. A esperança de que a morte do General não seja em vão
. A esperança da mudança
O Preto de Sousa Falcão:
- Luto por si mesmo
- Auto-recriminação por não ter tido a coragem do General
- Se ele partilhava os mesmos ideais que o General, deveria ter dado a cara e lutado com ele
- Arrepende-se da sua cobardia
“Há homens que obrigam todos os outros a reverem-se por dentro”
O Título:
- Por D. Miguel: 
. “Felizmente há luar” para se verem melhor as execuções e para que o medo conseguido seja maior a abranja mais pessoas.
. A Lua: monotonia, falta de liberdade de acção e expressão.
. Tal como a lua, os regimes déspotas só sobrevivem se os mais fortes estiverem controlados. Brilham com a luz dos outros.
- Por Matilde: 
. O luar permite que mais gente veja a fogueira, mais gente vença o medo, mais gente se revolte e se una para mudar.
. O luar aumenta a amplitude da purificação. Mais irão percorrer em direcção à luz, à liberdade, ao conhecimento, à justiça, à democracia.
Relação entre a carga dramática de Matilde, o tempo da história e o tempo da escrita: 
Escrito no século XX, em pleno auge do regime ditatorial de Salazar, e remetido para o século XIX, em pleno regime déspota, Felizmente há luar mostra-nos, claramente a censura e a falta de liberdade de acção, pensamento e expressão que se viveu nestes dois tempos. 
Matilde aparece como a força do segundo acto, carregada de emoção, provocando o clímax da história. É ela quem denuncia e quem se revolta contra o movimento castrador que se desenvolvia por todo o país, quem ousa enfrentar o poder absoluto em prol da liberdade, da mudança e da democracia. Usa frases simples, mas fortalecidas com grande energia, coragem e direcção: “Cortam-se as árvores para não fazerem sombra aos arbustos”. Mostra-nos que toda e qualquer ameaça ao poder conservador e unidireccional era, imediatamente, aniquilado.
Matilde oscila entre dois pólos: num é uma mulher frágil e comovida que luta exclusivamente pelo marido inocente, vítima dos interesses mais altos do reino; noutro é a mulher forte e destemida que grita as condições do povo, a podridão das relações da igreja, a falta de índole da nobreza e a ignorância do povo. No entanto, em ambos os casos é uma lutadora, ávida por justiça, que acorda o público/sociedade para a lástima de pessoas que governavam em Portugal. As crises são cíclicas. Foi no século XIX, foi no século XX e foi em muitas outras ocasiões anteriores porque o Homem é assim: não aprende.

Fonte: NotaPositiva.com